terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Retrato de uma Princesa Desconhecida

Para que ela tivesse um pescoço tão fino
Para que os seus pulsos tivessem um quebrar de caule
Para que os seus olhos fossem tão frontais e limpos
Para que a sua espinha fosse tão direita
E ela usasse a cabeça tão erguida
Com uma tão simples claridade sobre a testa

Foram necessárias sucessivas gerações de escravos
De corpo dobrado e grossas mãos pacientes
Servindo sucessivas gerações de príncipes
Ainda um pouco toscos e grosseiros
Ávidos cruéis e fraudulentos

Foi um imenso desperdiçar de gente
Para que ela fosse aquela perfeição
Solitária exilada sem destino

Sophia de Mello Breyner Andresen

As pessoas sensíveis


As pessoas sensíveis não são capazes

De matar galinhas

Porém são capazes

De comer galinhas


O dinheiro cheira a pobre e cheira

À roupa do seu corpo

Aquela roupa

Que depois da chuva secou sobre o corpo

Porque não tinham outra

O dinheiro cheira a pobre e cheira

A roupa

Que depois do suor não foi lavada

Porque não tinham outra


"Ganharás o pão com o suor do teu rosto"

Assim nos foi imposto

E não:

"Com o suor dos outros ganharás o pão."


Ó vendilhões do templo

Ó construtores

Das grandes estátuas balofas e pesadas

Ó cheios de devoção e de proveito


Perdoai-lhes Senhor

Porque eles sabem o que fazem.


Sophia de Mello Breyner Andresen

(Livro sexto)

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Reflexão...

Uma sociedade que maltrata os seus velhos, rejeita a sua memória. E um país sem memória é um país sem futuro.